telúrico

(2012) 35′
Baritone and chamber orchestra
(fl/pic, ob/eh, clt/bclt, bsn/cbsn, hn, trp, trb, 2 perc, hrp, pn, 2 vl, vla vc, cb)


Program Notes

Telúrico is based on seven poems by Miguel Torga, titled História Trágico-Telúrica, and was composed to be staged with the baritone taking the role of the poet-doctor and switching between those roles while interacting at times with the musicians, all on stage. 

Lyrics

Sung in Portuguese

 

Adapted from a set of poems by Miguel Torga titled “História Trágico-Telúrica”

 

I-Terra

 

Como ondulada capa de miséria

a cobrir de negrura a cor das chagas,

assim és tu, crosta de velhas fragas

aobre o corpo da Ibéria.

 

II-A raça

 

Enxame rumoroso num cortiço

de paredes de espuma,

que tropismo secreto e movediço

trouxe da bruma 

a abelha-mestra que começou?

Que carinhoso aceno

lhe faria este chão, seco e moreno,

onde com asas de ilusão pousou?

Talvez que no silêncio lhe dissesse

que só daqui, materna, poderia

embarcar o enxame

que nascesse,

no velame

doutra ilusão que o tempo lhe daria...

 

III-Fado

 

Tem cada povo o seu fado

já talhado

no livro da natureza.

Um destino reservado,

de riqueza

ou de pobreza,

consoante o chão lavrado.

E nada pode mudar

a fatel condenação.

No solo que lhe calhar,

a humana vegetação

tem que viver, vegetar,

cantar ou chorar

às grades dessa prisão.

 

IV-A vida

 

Povo sem outro nome à flor do seu destino;

povo substantivo masculino,

seara humana à mesma intensa luz;

povo vasco, andaluz,

galego, asturiano,

catalão, português:

o caminho é saibroso e franciscano

do berço à sepultura;

mas a grande aventura

não é rasgar os pés

e chegar morto ao fim;

é nunca, por razão nenhuma,

descrer do chão

duro e ruim!

 

V-Pão

 

De sol a sol, o arado lavra a terra.

De sol a sol, cai o suor ao chão.

E como cada gota é um grão

da sementeira,

é puro sofrimento que, á torreira

da futura colheita,

ceifa, malha e peneira

a fome insatisfeita.

 

VI-O vinho

 

Sumo das pedras, colorida fonte

onde Narciso se não pode olhar,

é nela que se tenta embebedar,

nas horas de mais negro sofrimento,

o pobre e atribulado sentimento

de solidão,

que vive incompreendido

e ressentido

em cada coração.

 

VII-A miragem

 

Num deserto de areia ou incerteza

o desenho desenha.

Fantasia um fantasma, que lhe  venha

acudir.

Qualquer Preste João,

Mas rico e generoso,

que, depois do mar largo e tormentoso,

possa abrir

as arcas da canela e da pimenta

aos seus irmãos

que a terra natural já não sustenta.


Tags: ,