finisterrae

(2006 | in progress)
Opera in 12 scenes based on libretto by Abel Neves


Lyrics

FINISTERRAE
libreto por Abel Neves

Cena 1.

Noite. Neblina
O fundo é um mar imenso de prata escura. Um ponto de luz distante, diverge nas águas marcando uma estrada azulada. Acima do mar vêem-se constelações num céu profundo.

FINIS

Sou Finis, Finis...
O que tu és, Senhor, eu sou.

 

Os que viajam conhecem a tua luz,
Os que passaram, os que chegaram.
Sou a tua voz no teu silêncio,
Sobre a terra, sobre o mar.
Prepara, senhor, a tua luz,
Há outros que preparam a viagem.

Sou Finis, Finis...
O que tu és, Senhor, eu sou.

Durante a voz de Finis o mar desaparece e surge, omnipresente, o Farol. 

Cena 2.

Minúsculo, um barquinho de papel atravessa a cena e é como que engolido pelo Farol.
Aparece o Louco. Senta-se e olha o Farol, alucinado.
O Farol dá um sinal de luz varrendo o espaço e o Louco lança um gemido muito sofrido.

LOUCO

O que é que está a doer?
Está a doer-me cá dentro.
O que é? O que é que dói?
Está a doer o mar,
O mar é que me dói.

Quando vou morrer, quando vou?
Só quando deixar de saber!
Os que dormem são como os pássaros.
Oh, cá vem a dor outra vez!
Há gente no mar que passa.

O Farol varre o espaço pela segunda vez.

O que eu sei ninguém quer saber,
Nem Finis, a mãe de todos.
Finis é grande e é mulher
E não quer saber o que eu sei.

Ela sabe o que os astros dizem,
Sabe tudo, tudo, tudo,
É a voz imensa do Senhor
Mas não quer saber o que eu sei.

O faroleiro é Tanif, o chefe do Farol
E só ele sabe o que Finis quer.
Ele é o chefe e sabe o que dizer.

Os outros, os que dormem como os pássaros
Só sabem, só dizem
O que o chefe faroleiro diz.

FINIS

Os que partiram querem um dia voltar.

LOUCO

Finis!

FINIS

São homens.
Cheios de riqueza e de poder.

LOUCO

Há gente no mar que passa.

O Louco olha atemorizado para o alto do Farol.
O Farol varre o espaço pela terceira vez. O Louco afasta-se.

FINIS

Três vezes Tanif deu o sinal.
Três vezes viram o sinal.
A luz, senhor, está presente.

O Louco manda um gemido, o olhar fixo num ponto distante.
No alto do farol acende-se uma luz, uma luz fraca e trémula.

LOUCO

Tanif, o chefe faroleiro, faz o que Finis quer.
Ele tem as ordens.
E os que dormem como os pássaros obedecem.
O Louco ri.
Os que dormem não sabem, Obedecem.

Há gente no mar que passa
E vão para longe.
Mas que vão eles saber
Da gente que vive tão longe?

Se eu soubesse o que falam,
Se eu soubesse o que dizem,
Se eu soubesse o que sabem,
Aqueles que vivem tão longe!

Surge no alto do Farol um vulto que ora aparece ora desaparece.
É Tanif . O Louco esconde-se.

Tanif é capaz de houvir tudo.
Não posso perguntar,
Não posso cantar,
Só posso saber que há gente no mar que passa.

O Louco observa Tanif que no alto do Farol olha as lonjuras do mar.
Tanif desaparece. O Louco aproxima-se da base do Farol.

Quero o que me roubaram, Tanif!
Quem sou eu?
Só tenho a minha voz.
Hei-de sempre voltar, Tanif!

Surge Tanif no alto do Farol e com uma lanterna acesa procura adivinhar alguém perto do Farol. O Louco esconde-se.

TANIF

És tu Louco?

Silêncio.

Apaga a tua voz, Louco!
Os que dormem precisam de paz.
Os que dormem não querem ouvir a tua voz.

LOUCO

É sempre de noite que venho.
De dia não me querem.

TANIF

Vai dormir, Louco, vai dormir!

LOUCO

A noite é que sabe de mim
E eu não sei nada da noite.

TANIF

Não sabes o que dizes.

LOUCO

Finis é mãe de todos.
Finis é minha mãe.

TANIF

Não digas o seu nome,
Não podes dizer o seu nome!

LOUCO

Quem sou eu?
Quem sou eu, Tanif?

TANIF

Não perguntes nada!
Vai dormir, Louco!

LOUCO

Hei-de voltar,
Hei-de sempre voltar!

As cores do céu mudam. As constelações desaparecem. É o nascer do dia. As cores da manhã atemorizam ainda mais o Louco e ele foge. Tanif sai também. Mantém-se alguma neblina. 

Cena 3.

 

Ouve-se o Coro.
CORO

Finisterrae!
Finisterrae!
Finisterrae!

Entra o Coro. Homens e mulheres vestidos com figurinos de variadas modas e épocas diferentes. Trazem miniaturas de casas, pontes, moínhos, animais, igrejas, musgo, terra, água, etc., e constroem a Comunidade, tal como um presépio, atrás do Farol.

CORO

Finisterrae!
Finisterrae!
Finisterrae!

Entra Rae, a criança eleita, que corre trazendo um papagaio de papel que voa nas alturas. O Coro mostra satisfação com a entrada de Rae. Entra Niste, a ama.

NISTE

Rae!

Elementos do Coro continuam a construção da Comunidade. Niste como que persegue Rae para o proteger de algum perigo.

Cuidado com as pedras!
Cuidado com a lama!
Cuidado com a terra!

 Rae pára e olha para o papagaio. Niste aproxima-se, protectora.

RAE

De onde vem o vento?

NISTE

Olha os pássaros.
Para onde vão os pássaros.
O vento vai atrás.

CORO

Finisterrae!
Finisterrae!
Finisterrae!

NISTE

Anda, vamos!
Tens muito que aprender.

Rae corre e sai. Niste sai também, correndo atrás dele.

CORO

Finisterrae tem futuro.
Rae! Rae! Rae!

Rae há-de ser um dia
O que Tanif é agora:
O chefe do Farol,
Nosso pai,
Protector da luz que guia os barcos,
Aquele que conhece as viagens,
as cartas de viajar,
a física dos mundos.

Oh, Tanif, a criança eleita gosta de sonhar.
Oh, Tanif, esta terra te dê a força de mil anos!
Nós só queremos esta paz,
Nós só queremos a tua paz.

Finisterrae!
Finisterrae!
Finisterrae!

Tanif surge no alto do farol e começa a descer. Todos aguardam a sua chegada, cerimoniosamente. Junto da Comunidade, Tanif observa todos, quase um por um.

TANIF

Niste!
Onde está Niste?

CORO

Passou com Rae.

TANIF

Tomaram o caminho do mar?

CORO

Não
Para o campo dos moínhos.
Conhecer o trigo,
Saber das máquinas de fazer o pão.
Anda a saber dos pássaros,
Dos ventos!

TANIF

(sorrindo) Anda a saber dos ventos?

CORO

Rae anda a saber dos ventos!

TANIF

Rae há-de saber tudo.

CORO

Os carros e as mós,
Dentes d'aço, os pára-raios,
Ervas, casas e astros,
Livros e searas,
Regatos, vinhas e pedreiras,
Serras e vales.

TANIF

Saberá do outro mundo.

CORO

Saberá do outro mundo!

TANIF

E Retsi?
Onde está Retsi?

CORO

Constrói uma invenção.

 Silêncio total. Agitação. Todos olham apreensivamente para Tanif.

TANIF

Respondei!
Retsi, onde está Retsi?

CORO

Que dissemos?
Sabemos o que tu sabes.
Retsi é o construtor.
É o que todos sabemos.

TANIF

Retsi constrói uma invenção?

CORO

Oh, Tanif, a tua filha!

Todos olham para o alto do Farol. Atinis, a criança filha de Tanif, observa a comunidade em baixo, estranha, atenta, silenciosa. A um gesto de Tanif, Atinis desaparece.

CORO

Dá as tuas ordens, Tanif!
Manda-nos trabalhar.
A noite deu-nos o reposo
E o sol com o seu calor
Quer agora a nossa força.

As quatro estações são uma para nós,
Toda a riqueza que se ganha é uma,
Todo o saber é um,
O suor é de todos e a vida é uma.
Dá as tuas ordens, Tanif.

TANIF

Sim,
Não deixemos para amanhã
O trabalho que é de hoje.
Vão pela rede!

Todos saem. Tanif sobe ao Farol e por momentos observa em redor.

Os homens comem pão
E trabalham para o pão.
Finis é que disse:
És tu o chefe do Farol.

E eu conheço os abismos do mar
E as planícies do céu.
Ai de quem diga o que eu não digo!
As minhas palavras são as palavras justas.

Conheço o caminho dos homens,
Os que passam a navegar.
Ai de quem diga o que eu não digo!
As minhas palavras são as palavras justas.

Conheço o porto onde chegam os navegantes,
As leis e os costumes dessas gentes.
Ai de quem diga o que eu não digo!
As minhas palavras são as palavras justas.

Chegar, ver e conhecer é tão pouco para quem parte.
A riqueza é mais ainda: vencer, vencer, vencer!
Ai de quem diga o que eu não digo!
As minhas palavras são as palavras justas.

Os homens comem pão
E trabalham para o pão.
Finis é que disse:
És tu o chefe do Farol.

Breve silêncio. Tanif olha em redor:

Retsi, constrói uma invenção?

Retsi! Retsi!

Cena 4.

Entra o Coro e Retsi. Trazem uam enorme rede de pesca que desdobram lentamente. Uns sentam-se, outros em pé. Seguram, puxam e fazem andar a rede. O trabalho é paciente e cuidadoso, um ritual de trabalho colectivo mas que deve sugerir a ideia de um trabalho sem objectivo.

(continua)


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